Se a teoria é rapidamente esquecida,
o gesto e a experiência artística
ficam no corpo, na memória, no olhar.

Nov 042015
 

"Diario di un Maestro", de Vittorio de Seta, será apresentado por Bernard Eisenchitz e José Manuel Costa, no ciclo "Nos Caminhos da Infância" - sábado 7 de Novembro de 2015 às 15h00 e 18h30 no CAM (Fundação C.Gulbenkian).

A dramaturgia de Diario di un Maestro baseia-se nos incidentes do quotidiano. Mas está também muito afastada do famoso projecto neo-realista de Cesare Zavattini que era “filmar o dia de um homem a quem nada acontece”. Não param de acontecer coisas nesta turma e com este professor.(…) O professor chega no segundo trimestre para retomar uma turma de quinta (quinto ano) , alunos de cerca de onze anos que terão de fazer um exame no fim do ano para concluir o ciclo primário. Os colegas avisam-no que não se empenhe demasiado naquela turma : só tem elementos “pouco fáceis”, é uma turma de “desprezados” (squarti) ou até de delinquentes (deliquenti). A indiferença dos professores e da direcção que não tardarão a transformar-se em hostilidade contra o professor, é o primeiro obstáculo com que se depara. Esta indiferença é dirigida tanto aos alunos como aos pais.
Desde a primeira aula, o maestro constata que as crianças aprendem a decorar, sem compreender, para passarem no exame. “Um desastre!” (...)
Mas Bruno não é a única personagem principal: verifica-se que as crianças sabem muitas coisas e tomam iniciativas. Um passa o testemunho a outro e assim sucessivamente. Ao fim e ao cabo “a realidade dita o programa”.
Um passeio ensina-lhe mais acerca dos alunos do que aquilo que teria aprendido na sala de aula: os lugares onde vivem, a sua relação com os animais. Os alunos falam do que conhecem, o professor já não é um estranho... (...)
Bernard Eisenschitz, 
in catálogo "Nos Caminhos da Infância 1"
Nov 022015
 

"O Caminho da Vida", de Nicolaï Ekk, será apresentado por Pierre Léon, Manuela Barros Ferreira e Cláudio Torres, no ciclo "Nos Caminhos da Infância" - sexta-feira 6 de Novembro de 2015  às 21h00 no CAM (Fundação C.Gulbenkian)

O primeiro filme de ficção sonoro e e de língua soviética estreia a 1 de Junho 1931 em Moscovo. Será projectado 1 200 vezes em pouco mais de um ano. Ao fim de quatro meses é visto por um milhão de espectadores. "O Caminho da Vida"", realizado por Nikolaï Ekk, dará a volta ao mundo, recolhendo prémios e felicitações da comunidade cinematográfica internacional. À primeira vista, as coisas parecem extremamente simples: a conjuntura política e cultural no momento do nascimento do filme é favorável. A história é, no início dos anos 20, entre o fim do Comunismo de guerra e a Nova Política Económica (a NEP), sobre a reeducação dos jovens delinquentes nas colónias abertas e supervisionadas pela OGpou, então dirigida por Felix Dzerjinski, o seu fundador. Colónias batizadas de comunas, onde os besprizorniki (literalmente: “sem vigilância”), milhares de crianças lançadas nas ruas pela Revolução e pela Guerra Civil, verdadeira chaga das cidades-monstros como Moscovo e Leninegrado, são agrupadas e “moldadas” pela “plaina” de educadores audaciosos, cujo representante mais conhecido continua a ser Anton Makarenko, autor do Poema Pedagógico. Uma vez moldados, “refundidos”, os jovens podem integrar a sociedade socialista e participar na sua construção, tomar “o caminho da vida”. O título russo é ainda mais preciso já que poutiovka designa o que se poderia chamar “ordem de missão” ou “roteiro”, metáfora mais exacta para descrever um sistema normativo em última análise, apesar do carácter fundamentalmente inovador, libertador e parcialmente eficaz de uma experiência pedagógica de inspiração rousseauniana, em grande escala. (...)
Pierre Léon
in catálogo “Nos Caminhos da Infância 1"
Out 192015
 

A Trilogia de Bill Douglas (My Childhood / My Ain Folk / My Way Home), apresentada por Maria Luís Borges de Castro e Marcos Uzal, no ciclo "Nos Caminhos da Infância" - sábado 31 de Outubro de 2015  às 15h00 e 18h30 no CAM (Fundação C.Gulbenkian)  


Os factos e os locais filmados na trilogia de Bill Douglas (A Minha Infância, 1972; A Minha Gente, 1973; O Meu Caminho para Casa, 1978) são exactamente os da infância do cineasta. Esta fidelidade às suas recordações não se trata simplesmente, para ele, de contar a sua infância, como tantos fizeram, mas sim de reencontrar sensações, emoções passando-as para nós o mais claramente possível. Conta-se que o cineasta, uma pessoa doce na sua vida, era capaz, durante as filmagens, de grandes fúrias quando não obtinha o que queria. É que tinha de encarar a sua terrível infância para a expor a nu, em toda a sua verdade.  Isto só podia conseguir-se com uma precisão implacável em que cada quadro e a intensidade de cada gesto respondessem, mais do que a um perfeccionismo estético, à exigência de cada plano ser como que um concentrado da memória. Através do cinema, Bill Douglas salva a sua infância. Retira-lhe a sua dor muda, conferindo-lhe um sentido e uma forma. É um gesto perturbador mas que não procura submergir-nos à força numa emoção antecipada. Sendo a infância de Jamie essencialmente uma sucessão de momentos patéticos e cruéis, a concisão da encenação evita qualquer amargura, sentimentalismo, complacência sórdida. A emoção surge nos silêncios, nas elipses, nos olhares fixos, na economia dos  gestos; não se exibe mas como que se abre perante nós, plano após plano, como essas austeras dobragens japonesas que se transformam em flores quando mergulhadas na água.(...) 

Marcos Uzal,
in catálogo "Nos Caminhos da Infância 1"
Out 182015
 

"Experiência", de Abbas Kiarostami, apresentado por Alain Bergala, no ciclo "Nos Caminhos da Infância" - sexta-feira 30 de Outubro de 2015  às 21h no CAM (Fundação C.Gulbenkian) -

"Todos crescemos, no tempo do cinema, a ver filmes que nem sempre compreendíamos, mas que nos mostravam um mundo ao qual iríamos ter acesso, talvez, mais tarde.
Um mundo de "grandes" que tinha para nós algumas zonas de sombra e não sabíamos ainda se tinhamos vontade de aceder a ele ou se ele nos fazia medo. Normalmente eram as duas coisas ao mesmo tempo. Dependia dos filmes. Se eles nos pareciam levar a uma vida possível ou a um universo inacessível. Se nos pareciam descrever um mundo desejável ou um mundo assustador. O cinema na infância, serve para fazer o ponto da situação sobre o nosso desejo de sair dessa infância, ou de ficar aí o mais tempo possível, e talvez mesmo, uma vez crescidos, de guardar preciosamnete esse refúgio dos filmes que amamos em crianças e que nos ajudaram a crescer. Os cinéfilos "de coração", mais do que os cinéfilos "na cabeça" guardam em toda a sua vida o desejo de reencontrar o estado emocional da infância cada vez que entram, desarmados, num filme. Quando a nossa vida já não está aberta a todos os possíveis da infância, quando qualquer coisa que se inscreveu em nós nos define, quer o queiramos ou não, como adultos, o cinema mantém-se um refúgio ideal para regressar a esse momento anterior ás escolhas que nos limitam no imaginário que temos de nós próprios e da nossa própria vida.” (…)
Alain Bergala
in catálogo “Nos Caminhos da Infância 1"