2014-2015 O Intervalo

 

CINEMA, CEM ANOS DE JUVENTUDE 2014-2015 – O INTERVALO

  TEMA

O CINEMA, ARTE DO INTERVALO

Serge Daney dizia : “Filmar entre só é possível se pensarmos que o que há entre as pessoas é o que as reúne e as separa. O entre, para mim, é pensar sobre o modo de intervalo, do vazio, do neutro. Paradoxo: a distância que me separa de alguma coisa separa-me mas reúne-me também a essa coisa. É o espaço artistotélico, o espaço geometral, que nos formou profundamente, mesmo se sabemos que há um outro que permite de compreender as coisas, que é o espaço do desejo e da pulsão, que esse não é geometral. É o encontro dos dois que torna possível haver Lang e Hitchcock.”

Existe um outro enigma no que respeita ao intervalo: é o facto de que, no cinema, é no mesmo espaço visível, aparentemente homogéneo para a percepção, que se inscreve o intervalo entre as figuras, e o intervalo entre a câmara e as figuras. É no mesmo espaço em que se jogam as relações entre as criaturas da ficção, e onde se joga a relação entre o criador (e depois o espectador) e as suas criaturas.

Este intervalo resulta frequentemente da relação entre o cineasta e os seus actores: é por exemplo, Jean Renoir aproximando-se de Sylvia Bataille no momento da lágrima em Une Partie de Campagne (Passeio ao Campo).

O intervalo entre as figuras e o intervalo entre a câmara e as figuras podem ser, como diz Serge Daney, objectivos ou atravessados/percorridos por uma pulsão.

O intervalo entre as pessoas não resulta exclusivamente das relações intersubjectivas mas também das culturas e das sociedades. Não nos colocamos à mesma distância do patrão ou do empregado dos correios em França, na India e no Japão. Os códigos culturais definem, mesmo que não tenhamos consciência disso, as distâncias de proximidade na situações sociais.

O tratamento do intervalo é uma peça fundamental para o cineasta na sua maneira de produzir a emoção. Quer do lado das relações entre as personagens como do lado de relação que a distância da câmara provoca no espectador.

Há grandes cineastas do intervalo: Renoir, Mizoguchi, Hitchcock, Truffaut, Antonioni, Rossellini, Bergman, Godard, etc …

Iremos trabalhar algumas figuras privilegiadas do intervalo: o encontro, o olhar de desejo? amoroso?, as personagens no espectáculo, o conflito familiar, a questão de desejo ou de inveja …

Poderíamos também trabalhar a questão do intervalo baseando-nos num filme inteiro:  Moonrise Kingdom de Wes Anderson.

Alain Bergala

EXERCÍCIOS

Se faltar tempo para realizar os dois primeiros exercícios, uma parte da turma pode realizar unicamente o exercício 1, e a outra parte da turma o exercício 2, sob condição que analisem em conjunto os resultados dos 2 exercícios.

O 3° exercício é indispensável. Os exercícios 1 e 2 serão postos online no blog. O exercício 3 será apresentado no balanço de etapa.

 1 – Posicionar duas pessoas uma atrás da outra, a uma distância de 7 metros. Não devem mudar de lugar para realizar as três fotos.

A primeira foto com teleobjectiva (focal mais longa do zoom)

A segunda foto com focal média (meio do zoom)

A terceira foto com grande angular (focal do zoom mais curta)

Muito importante: tem de ver-se as 2 personagens de frente para a camara e a que estiver no primeiro plano deve guardar a mesma proporção (rosto e pescoço) no enquadramento e estar nítida.

Atenção: trabalhar unicamente com o zoom óptico, dispensando o zoom digital.

 2 – Uma personagem em pé (plano aberto) de frente para a câmara (com tripé, fixo) olha algo ou alguém á sua frente (fora do campo). A personagem aproxima-se progressivamente para ver melhor.

Fazer 2 planos desta situação, tentando guardar a nitidez sobre a personagem, se possivel: uma em grande angular (focal mais curta), outra com teleobjectiva (focal mais longa).

Este exercício será mais fácil de realizar em exterior dia, com luz.

3- Filmar a mesma situação de três formas diferentes:

1 – em plano sequência,  quadro fixo

              2 – Com découpage (em 3 ou 4 planos)

              3- em plano sequência, com movimentos de cãmara (panorâmica ou outros)

A situação é: A entrega algo a B, o que produz uma tensão e um conflito.

Desenvolver o que se passa entre ambos num determinado espaço após essa tensão ou conflito inicial.

Mesma situação exactamente para as três versões, somente os actores podem mudar.

Com utilização mínima de diálogos (1 a 2 por versão).

FILME ENSAIO

Introduzir as seguintes etapas como momentos importantes do filme, que poderão seguir-se segundo a ordem indicada abaixo ou outra ordem à escolha.

Uma personagem olha com inveja/desejo/ tristeza uma cena (que inclui 2 ou 3 personagens), onde não há lugar para ela. Vemo-la afastar-se.

Encontra outra personagem.

No filme, a emoção será suscitada pelos intervalos visuais e sonoros entre as personagens e entre a câmara e as personagens: aproximações, afastamentos, elementos entre eles, objectos que tapam/ocultam…