2019-2020 A Sensação no Cinema

 

2019-2020 : A Sensação no cinema

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O escritor português Fernando Pessoa escrevia : «A única realidade da vida é a sensação. A única realidade em arte é a consciência da sensação.” «A arte, na sua definição plena, é a expressão harmónica da nossa consciência das sensações, ou seja, as nossas sensações devem ser expressas de tal modo que criem um objecto que seja uma sensação para os outros”.

Mesmo que não pense especificamente no cinema quando escreveu estas linhas, Pessoa define um ideal: o filme seria um objecto que produz nos outros, os espectadores, uma sensação reconstruída a partir da que foi vivida pelo cineasta.

Em todos os filmes, o sentido constrói-se a partir de sensações visuais e auditivas do espectador. Mas na generalidade, no cinema standardizado, a vontade de narrar uma história (o argumento, os actores, os diálogos) acaba por ser mais importante que as sensações, e por escondê-las, abafá-las. O sentido vence então sobre as sensações que a câmara captou.

As sensações visuais e auditivas fazem parte da própria essência do cinema. Sem elas não haveria filmes. Mas o cinema pode também produzir sensações tácteis: calor, frio, liso, rugoso, etc, e sensações cinestésicas: cair, levantar-se, sentir-se mal, ter vertigens, etc.

As sensações que o espectador experimenta quando atravessa um determinado filme são, por vezes, as que são vividas por uma personagem – é ela que vê, que ouve, que recebe as sensações – ou então pelo contrário, são sensações propostas directamente ao espectador pelo cineasta, sem passar através da sua personagem.

Alguns cineastas não esquecem nunca, mesmo nos filmes narrativos, que a sensação é tão importante como o querer-dizer e deve ficar no centro da sua criação. Hitchcock, Godard, Douglas Sirk, Antonioni, Renoir, Kiarostami, Terence Malick, Tarkovski e muitos outros esforçaram-se por manter o equilíbrio entre o sentido e a sensação. E nunca se esqueceram que o sentido que nasce da sensação é sem dúvida a verdadeira «natureza» do cinema.

Outros cineastas, menos preocupados em contar uma história e construir sentidos, elaboraram o seu cinema primando as sensações. É o caso de Jonas Mekas que criou uma obra mágica e fascinante a partir da captação-reconstrução das sensações. É o caso de outros cineastas, mais «experimentais», como Pelechian, Stan Brakhage, Rose Lowder e muitos outros, para quem o cinema é em primeiro lugar captação e trabalho sobre as sensações.

Alain Bergala 14 de Junho de 2019

 

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