2021-2022 Os Motivos no Cinema

2021-2022 : Os Motivos no Cinema

TEMA

No seguimento do tema do ano passado – o tempo – ligado a um período onde a realidade se tornava mais longínqua e abstracta – pareceu-nos interessante regressar às coisas elas próprias. Elas são a matéria principal do cinema.

Em qualquer plano que seja, podemos enumerar as coisas que o compõem.

Mas as coisas presentes num filme são incontáveis e muitas são residuais e não acedem ao estatuto de motivo.

Para que uma coisa se torne motivo, é preciso que o cineasta tenha consciência da forma como o vai tratar (na mise-en scène, no argumento, pelo enquadramento e a luz…) para que ela se transforme em matéria de cinema, uma peça importante do seu filme.

Como um pintor que escolhe um ramo de flores, uma montanha ou um rosto especial para fazer disso conscientemente, com a técnica de que dispõe, um elemento da sua tela e da sua representação pictural do mundo.

Abordaremos este tema dos motivos a vários níveis, estreitamente interligadas na criação do filme.

1 Coisas do mundo. A árvore, o guarda chuva, o baloiço, etc. O cineasta começa por escolhê-los como motivos de que precisa ou deseja para o seu filme. Para isso ele tem que fazer uma escolha entre as coisas que pertencem á mesma categoria: tal árvore, tal bicicleta, etc.

2 Lugares de décor básicos e recorrentes: por exemplo a escada, uma passadeira para peões, a janela, etc.

Alguns motivos de cinema, que são muitas vezes lugares integrantes do décor, têm um grande poder “de contar”. Eles induzem a criar situações de argumento e simultaneamente oferecem fortes possibilidades de planos, de pontos de vista, de filmagem.

3. Meios específicos do cinema. O cinema utiliza com frequência motivos visuais que têm afinidades com a sua linguagem e os seus dispositivos específicos: a janela, o espelho, a sombra, etc…

A janela, por exemplo, é filmada do exterior da casa, como um quadro dentro do quadro, ou pelo contrário do interior da casa com uma “vista” sobre o exterior?

Num plano onde alguém se olha ao espelho, o cineasta escolhe mostrar só o reflexo no espelho ou pelo contrário inclui no enquadramento as costas ou parte daquele que se olha nele?. A sombra de uma personagem é filmada com a personagem no mesmo enquadramento ou pelo contrário a sombra é mostrada de forma isolada, sem a personagem de onde ele vem?

4. Na temática pessoal do cineasta. Alguns cineastas, como alguns pintores (Cézanne e a montanha Sainte-Victoire, David Hockney e a piscina, Morandi e as garrafas) têm motivos predilectos que os inspiram e aos quais não deixam de regressar. Como as mãos em Bresson, os casacos compridos que batem ao vento em Sergio Leone, as águas estagnadas em Tarkovski, os «fragmentos da natureza» em todos os filmes de Terrence Malick, etc.

Alguns motivos acabam mesmo por carregar a marca singular que um cineasta lhes imprimiu, e são constitutivos da sua poética. Por exemplo, o motivo “livro-rosto” em Godard.

5. Muitos motivos de cinema estavam já presentes na história da pintura. Será interessante seguir por vezes a genealogia pintura – cinema de certos motivos como a árvore, o cabelo, o espelho, o baloiço, etc.

Proposta comparativa :

Alguns motivos visuais, como o cabelo por exemplo, ou o espelho, estão presentes em múltiplos filmes e permitem comparar como os cineastas os trabalham. Por exemplo como é que Jean Renoir, Nicholas Ray, Fellini, e Bergman filmaram uma mulher num baloiço?.

Escolha dos motivos

Trabalharemos a questão dos motivos no cinema da forma mais aberta e pragmática possível.

Mas para tornar a reflexão e os exercícios mais partilháveis, eis aqui uma lista de motivos que teremos mínimamente em comum

A escada

A sombra

A árvore

O smartphone

A passadeira para peões

A bicicleta

A janela

O espelho

A vitrine de loja

O guarda-chuva

O baloiço

Os cabelos

Tivemos em conta nesta escolha, da sua acessibilidade, para a reflexão, em múltiplos filmes, quer seja no cinema de ficção, no cinema documental, ou ainda em formas experimentais.

E também na sua disponibilidade prática, onde quer que seja, para a realização pelos alunos dos exercícios e dos filmes-ensaio.

Alain Bergala, Agosto de 2021

REGRAS DO JOGO

Até á formação inicial de CCAJ que terá lugar na quinta-feira 30 de setembro e sexta 1 de outubro 2021 ( no Ciné 104 em Pantin), todos os participantes ( professores, intervenientes e coordenadores) são convidados a encontrar excertos de filmes escolhendo na lista acima, alguns motivos em particular.

Em vez de procurar abarcar o conjunto dos motivos, é preferível concentrar-se sobre alguns motivos de forma aprofundada (descobrindo eventualmente os cineastas afeiçoados a esses motivos, e como se apropriam deles através dos seus filmes).

Pista bibliográfica :

Os Motivos no cinema, sob a direcção de Jordi Ballo e Alain Bergala (ed. Presses Universitaires de Rennes, 2019)

http://www.pur-editions.fr/detail.php?idOuv=4876

(ao fundo da página, separador “Documents”, possibilidade de descarregar a introdução do livro assim como o índice dos textos).

EXERCÍCIOS

1er exercício

em breve

2e exercício

Fem breve

FILME-ENSAIO

em breve

 

BLOG

A participação no blog faz parte das regras do jogo ao longo de todo o ano CCAJ.

É uma preciosa ocasião que permite aos alunos conhecerem-se e partilharem a sua experiência através do mundo, antes dos Encontros em Junho na Cinemateca.

Permite também aos pais saber mais sobre a aventura do cinema que os seus filhos estão a viver.

Favorece a comunicação entre os alunos que têm poucas possibilidades de se encontrar, actualmente mesmo a nível regional.

O blog pode ser dinamizado pelos próprios alunos, se possível. São os seus comentários, que eles irão publicar, ou através dos adultos se necessário.

Ao longo do ano, cada oficina dá conta do seu percurso, publica fotografias comentadas (reperages, filmagens etc), fotogramas dos filmes, reacções às publicações dos outros, etc.

Cada um pode escrever na sua língua, mas por favor traduzir igualmente em francês ou em inglês (pelo menos uma parte da publicação)

Para começar:

Antes de 15 de Dezembro de 20201, cada oficina deve publicar uma apresentação do grupo,

do lugar onde ela decorre (sala, estabelecimento escolar, aldeia ou cidade, etc.)